Você sabe por que setembro é amarelo?

Provavelmente você já viu prédios iluminados, laços nas empresas, campanhas nas escolas e uma quantidade enorme de frases nas redes sociais. Setembro chega e todo mundo parece saber que é preciso falar sobre saúde mental. Mas você sabe de onde veio o amarelo?

A história começou nos Estados Unidos, em 1994, depois da morte por suicídio de Mike Emme, um jovem de 17 anos conhecido por restaurar um Ford Mustang 1968 amarelo. No funeral, familiares e amigos distribuíram cartões com fitas amarelas e mensagens incentivando quem estivesse em sofrimento a pedir ajuda.

O gesto acabou se transformando no Yellow Ribbon Program e o amarelo passou a ser associado à prevenção do suicídio. No Brasil, o Setembro Amarelo ganhou força a partir de 2015 e hoje é a principal campanha de conscientização sobre o tema.

A importância de falar sobre suicídio

Os números ajudam a entender por que precisamos continuar falando disso. Mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo. E ainda temos enorme dificuldade de conversar sobre o assunto sem medo, julgamento ou explicações simplistas.

Durante muito tempo, evitou-se até pronunciar a palavra suicídio, como se falar pudesse dar uma ideia que antes não existia. Não dá. Perguntar diretamente a alguém se está pensando em morrer não coloca esse pensamento em sua cabeça. Falar sobre suicídio de maneira responsável pode, ao contrário, abrir uma conversa onde antes só havia silêncio.

Falar sobre prevenção também exige olhar para a maneira como aprendemos a lidar com o sofrimento, inclusive com aquele que faz parte da própria vida.

Em que momento estar feliz virou quase uma obrigação? É preciso estar bem, produzir, viajar, cuidar do corpo, ter bons relacionamentos, encontrar propósito, aproveitar o tempo e, se possível, demonstrar tudo isso.

Até uma terça-feira absolutamente comum parece um pequeno fracasso diante da sucessão de vidas extraordinárias que assistimos todos os dias. Acontece que a vida não é extraordinária o tempo inteiro. Ainda bem. A vida também é repetição, frustração, perda, tédio, dúvida, dias ruins e períodos em que simplesmente não estamos felizes. Isso não é necessariamente depressão. Essa diferença importa: nem todo sofrimento é doença, mas nem todo sofrimento deve ser normalizado.

Depressão e o direito de não estar bem

Depressão não pode ser reduzida a uma tristeza mais intensa e muito menos tem uma única aparência. Pode haver isolamento e choro, mas também trabalho, maquiagem, academia, piadas, filhos cuidados, compromissos cumpridos e fotografias sorrindo.

Ainda esperamos que o sofrimento tenha uma aparência que nos permita reconhecê-lo e, quando não reconhecemos, tentamos explicar. Você tem tudo. Precisa ocupar a cabeça. Pense nas coisas boas. Tem tanta gente passando por coisa pior. É curioso como temos pressa para convencer alguém de que sua vida é boa quando essa pessoa está justamente tentando nos dizer que não consegue senti-la dessa maneira.

Uma pessoa não precisa provar que sua vida é ruim para ter o direito de não estar bem. Reconhecer isso não significa transformar qualquer tristeza em diagnóstico, outro exagero bastante contemporâneo. Significa conseguir sustentar duas coisas ao mesmo tempo: sofrer faz parte da vida; adoecer também existe.

Durante setembro, uma frase aparece bastante: se precisar, peça ajuda. Certo. E o que fazemos quando alguém pede? Pedir ajuda não é tão simples quanto parece numa campanha. Significa correr o risco de preocupar a família, decepcionar quem acredita que você é forte ou parecer ingrato diante de uma vida que, vista de fora, parece boa. E, depois de conseguir falar, ainda existe o risco de encontrar alguém desesperado para fazer aquela dor desaparecer.

Nós dizemos que queremos ouvir, mas frequentemente aceitamos apenas dores bem-comportadas. Aquelas que têm uma causa compreensível, duram o tempo que consideramos razoável e melhoram depois dos nossos conselhos. Quando o sofrimento permanece, começamos a ficar desconfortáveis. Escutar alguém não é descobrir a frase perfeita nem encontrar imediatamente uma solução. Antes de explicar por que a vida vale a pena, é preciso conseguir ouvir o que se tornou tão difícil naquela vida.

Há momentos em que escutar significa agir. Falas recorrentes sobre morte, desesperança intensa, automutilação ou qualquer indicação de risco não devem ser tratadas como exagero, manipulação ou tentativa de chamar atenção. Precisam ser levadas a sério e encaminhadas para avaliação profissional. Uma conversa pode abrir uma passagem, mas familiares e amigos não precisam assumir sozinhos a responsabilidade de salvar alguém.

Setembro Amarelo também pode nos lembrar de algo mais cotidiano: ninguém precisa estar feliz o tempo inteiro. Precisamos reconhecer o sofrimento que pertence à vida sem transformá-lo imediatamente em doença e perceber quando já não estamos falando apenas dele.

Passamos boa parte da vida tentando parecer bem e outra parte tentando fazer com que quem amamos fique bem. Há afeto nisso, claro. Mas há também certa dificuldade em aceitar que alguém possa sofrer diante de nós sem que saibamos o que fazer. Então aconselhamos, animamos, relativizamos, lembramos tudo o que aquela pessoa tem. Qualquer coisa que devolva rapidamente a conversa para um lugar menos angustiante.

Em setembro, pedimos a quem sofre que fale. É um pedido importante. Só esquecemos que, quando ele finalmente falar, pode não dizer aquilo que gostaríamos de ouvir.

E, nessa hora, escutar pode ser justamente não obrigá-lo a ficar bem para que nós possamos ficar.

Fonte: https://www.folhavitoria.com.br/saude/voce-sabe-por-que-setembro-e-amarelo/